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Entrevista Atrocitus
Supremacia Rock Entrevista- Atrocitus
Por Administrador
Publicado em 31/12/2025 09:10
Supremacia Rock Entrevista

Saudações, Supremacia Rock nesse EP trás a vocês, umas das bandas que tem feito o caos na cena, diretamente do submundo Paranense, Atrocitus!

Bora...

1. Como a origem humilde de Campina Grande do Sul e a influência do cenário local moldaram a sua identidade sonora e a abordagem temática da banda?

O bairro onde Huan e eu(Petherson) crescemos, era meio entediante, não tinham muitas opções de entretenimento à não ser jogar bola ou videogame na casa de algum amigo da escola.
Com o tempo a gente descobriu um gosto em comum pela música, aí começamos à nos reunir para ver lives de banda. Metallica, Megadeth, Iron Maiden, Sepultura, Vader, Violator, etc.
A gente achava tudo aquilo do caralho, mas eramos muleque, não tinha idade, muito menos dinheiro para frequentar os eventos.

Campina nunca tinha algo atrativo para nós, piazada maluca de coletinho. Tanto que até hoje, nós não nos apresentamos em um evento aberto ao público na cidade de Campina Grande do Sul/PR. O que teve foram lives que a prefeitura abriu no período da pandemia. Pra quem conhece o nosso som, sabe que é o agito com a gente que vale a pena.

O nosso primeiro single ‘Epitaph” traz uma reflexão sobre vida e morte, e como estamos conectados com a mãe natureza. Acredito que essa temática não viria se não olhássemos tanto para a beleza do nosso quintal como o Morro do Anhangava, Pão de Loth, Itupava e todos os bosques que tínhamos próximo da gente. Sempre teivemos conversas muito profundas sobre a existência, ciência, política, nunca foi só a música. Acho que esse vazio da cidade, contribuiu para termos tempo em refletir sobre esses assuntos.

Hoje em dia, o bairro onde morávamos, está sendo engolido por lojas, comércios e igrejas. Cada vez mais um terreno é vendido, é construído mais lugares para locação, onde irão ficar um tempo parado. De certa forma, a gente continua falando sobre os mesmos temas quando olha pra cá. Mas agora é mais gritante, parece que o concreto sufoca os antigos moradores, sem falar na repressão policial que está ficando cada vez mais intensa.

Acho que Campina nos influenciou na ideia. O barulho a gente iria fazer em qualquer outro lugar. Mas a reflexão sobre o mundo em que vivemos, a injustiça, a opressão, isso tenho certeza que a terra do caqui nos influenciou.

2. Em um momento tão turbulento na história global, especialmente durante a pandemia, como vocês canalizaram as questões sociais, políticas e psicológicas presentes no álbum autointitulado para refletir a realidade do público?

Na situação em que eu estava, ou eu escrevia, ou eu coringava. Gosto de pensar que eu endoidei e escrevi cada pensamento. Foram 10 músicas escritas ao longo do ano de 2020. Virou uma rotina, tomar um café, lendo uma notícia absurda, e pensar, qual vai ser a de amanhã. Parecia que sempre piorava.

A chave pra canalizar tudo, foi o propósito. Sempre foi sobre o som e a mensagem. Sentia que precisava expurgar cada um daqueles sentimentos, e tinha certeza que outras pessoas estavam passando pelo mesmo, as vezes até pior, e tendo que sofrer em silêncio. Escrevia letras que não tivemos a oportunidade de ser inseridas. Fiz esboço de capas que eram ainda mais confusas da arte final do Jeca Paul. Inclusive, chamamos ele pra fazer a arte de colagem, porque era assim que a gente se sentia. Abstrato, confuso, sobrecarga de informação, uma persona sobreposta a outra, sem futuro. O Jeca não estava bem para fazer esta arte.

Tivemos que conversar várias vezes para maturar a ideia, convencer ele de fazer este trabalho incrível. Lembro que em uma das conversas entre a banda, nós tínhamos certeza de que não seria feito uma capa. Houve um papo de colocar um fundo branco apenas com a logo da Atrocitus. Esse é um dos motivos do porque o álbum não tem nome. Era tanto sentimento, tanta sobrecarga, sensação de que tudo ia desabar, que a coisa era literal. Tava ninguém legal nesse período não. A canalização veio, porque era a única coisa que tínhamos que realmente importava. Um grito de insanidade.

3. O seu som mescla elementos de Thrash, Death e Progressive Metal. Como essa fusão de estilos contribui para transmitir suas mensagens de protesto e reflexão de maneira mais impactante?

O que temos pra falar, geralmente é algo pesado. E a gente em alguns momentos pesou a mão justamente porque a temática é de revolta. Acredito que estamos cada vez mais alcançando o limiar entre conteúdo das letras e paisagens sonoras. O nosso ultimo lançamento “Veneno” é essa tentativa. Tem vários períodos na música, reflexivo, confuso, agressivo.

A gente também não tem medo de criar nada. Às vezes a música vai indo para 
outro rumo, completamente inesperado. Isso é Atrocitus, até quem está compondo se surpreende. Não temos um estilo bem definido, acho que somos um pouco de tudo e de tudo um pouco. Essa fase de ouvir apenas um som passou um pouco antes de começarmos a gravar os nossos primeiros lançamentos. E cada vez mais o Heavy Metal vem quebrando novas barreiras, se permitindo experimentar. A mensagem sempre é a mesma, faça você mesmo, seja você mesmo, quebre as correntes do sistema.

4. De que maneira as experiências vécidas na cena underground e o contato com bandas nacionais e internacionais influenciaram a evolução musical e temática do Atrocitus ao longo dos anos?

As bandas internacionais sempre irão guiar um caminho para os outros seguirem, afinal o estilo é gringo. A gente só tenta abrasileirar cada vez mais. Mas de influência direta, diria que as bandas locais, e nacionais. Acredito que o Underground está vivo sempre, nunca morreu.

Estou numa idade que tem outra geração mais nova, criando o seu som na 
garagem, eles tem as mesmas dúvidas que eu tinha na mesma idade. E eu aprendo com todos. Os que estão começando, os que já estão bem posicionados na carreira. Num geral, as bandas nacionais por estarem mais próximas da gente, nos espelhamos. Termina um evento com essas bandas, e você pensa; “é possivel” somos iguais. Agora, ver banda gringa é outro nível.

Geralmente a estrutura é melhor, já tem um público 
mais consolidado, e é o lugar perfeito para conversar com as pessoas que estão mais profissionalizadas. Galera das assessorias geralmente estão mais antenadas nesses eventos maiores. Então é legal comparecer pra conhecer pessoas, tanto do backstage quanto do público.

5. O álbum conta com a participação de Tati Klingel em uma faixa que aborda ansiedade. Como a colaboração com artistas de outros departamentos do metal e da música proporciona uma narrativa mais rica às suas mensagens?

Até o momento, a gente só fez feat com a nossa “panelinha”. Mas eu tenho um sonho de trazer artistas do MPB pra fazer um som com a gente. Seria épico, e não vejo problema algum nisso, só vai somar na nossa música.

Quanto à Tati, ela é incrível, front de Heavy Metal mesmo. Foram uns 2 à 3 meses de produção das demos desse álbum. Quando gravamos essa track “Ansiedade”, já tinha ideia de que precisava ser um feat. Vimos um brilho diferente nela. Algo que estava ofuscado só com a Atrocitus tocando. Quando chamamos a Tati para participar, ela topou na sequência. 

Se entregou mesmo para o projeto. Primeira versão que ela mandou pra nós, ouvimos, e falamos: “é isso!” Foi imediato. Trouxe perspectivas dela sobre os transtornos de ansiedade, depressão, crise de pânico. Ficamos muito felizes por estar com uma titã da cena curitibana, participando de todo o fluxo criativo na parte lírica.
Inclusive, o breakdown foi 
ideia dela. A música acabava completamente diferente. Agora imagina uma track dessa, sem aquele break sinistro? Tem como não, Tati salvou essa música. 

6. Quais obstáculos vocês enfrentaram na cena musical brasileira ao tentar se consolidar com uma proposta que combina agressividade sonora e reflexão profunda? E como superaram esses desafios?

Bom, o fato de estar tocando metal extremo já é um agravante. Cantar em português, mais um. Criticar o capitalismo, escancarar injustiças é mais um motivo para estarmos cada vez mais nichado. Cada vez mais, percebemos que tem mais pessoas com a mesma revolta. Eles precisam da gente e vice-versa. O movimento vem se tornando mais profissional, desde quando começamos, pelo menos, o Underground Nacional. Temos mais produtores querendo fazer eventos com qualidade. Não só marcar uma data em um local e jogar qualquer equipamento de som pra gente “se virar”. Atrocitus sempre prezou pela qualidade da nossa entrega. Não é só porque é Underground que a gente vai fazer de qualquer jeito.

Os desafios de hoje são, sustentar a banda, manter os outros trabalhos que temos. Nós 3 estamos pela música, eu sou professor de instrumento, o Geert é técnico de som, o Huan é professor e musicoterapeuta. Quanto aos desafios que temos dentro do cenário, tudo isso a gente já sabia desde o início, todas as outras bandas passam pelo mesmo.

7. Olhando para o futuro, quais temas sociais e políticos vocês acreditam que serão centrais na evolução do heavy metal brasileiro, e como o Atrocitus pretende contribuir para essa narrativa?

Eu espero do fundo do meu coração, uma radicalização do movimento.
Já temos bandas que estão lutando e trazendo esse debate, Black Pantera, Eskröta, SurraDesalmado, MC Taya, Crypta. Precisamos reforçar as pautas como, demarcação de terras para os povos originários, reforma agrária, fim da escala 6x1, fim da polícia militar, fim do genocídio, fim do racismo, machismo, homofobia, transfobia. Todas essas injustiças acontecem, e não é porque o sistema falhou, é simplesmente o sistema funcionando perfeitamente.

E quando se fala de radicalização, não é só apontar esses problemas, e achar um falso acordo. O nosso sistema tem um nome e se chama: capitalismo. Enquanto isso não for parado, ''nós'' vamos continuar matando minorias, entrando em mais desigualdade, e discutindo com familiares sobre política no almoço de domingo. Na Atrocitus, assim como outros artistas, estamos tentando levantar a reflexão e a organização da classe trabalhadora. Espero mesmo, que o Heavy Metal vire um centro de luta contra a opressão.
ATROCITUS | EM FORMAÇÃO ✊️ Estamos muito gratos pela espera e apoio de  vocês nessa transição aqui. Somos uma banda de Thrash/Death Metal, saída  das... | Instagram

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Nós agradecemos pelo tempo concedido para essa entrevista, desejamos sucesso demais ao Atrocitus nessa jornada!


Entrevista feita por: Bruno Lacerda 
Entrevistado: Atrocitus/Petherson

*Supremacia Rock, Portal De Mídia Underground*.

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